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Santa Paz Expedições à Vela

vida simples

Carta de Despedida 25/03/2008 - 17:46:22 | Sandra

Um vazio corre meu peito. Faz duas semanas que a Márcia, minha editora e amiga aqui da Vida Simples, me ligou para falar de mudanças na revista. Um ciclo se fecha, ela dizia, ao pedir que eu escrevesse uma coluna de despedida.

 

De volta no tempo, lembrava do convite para escrever a coluna, desafio novo em um momento efervescente. Minha rotina estava em revolução, tinha acabado de mudar para um veleiro com minha família. Mais do que conhecer países e culturas diferentes, aprendia a ser mãe e a navegar a vida sem destino, vivendo o aqui e agora.

 

Atrás de mim ficava uma vida de executiva de propaganda com rotinas longas e estressantes, à minha frente tinha o futuro e toda a liberdade do mundo. A oportunidade de dividir estas experiências em um espaço como a Vida Simples veio na hora certa. A vida me apresentava um veículo para multiplicar e compartilhar minhas experiências.

 

Dividir esse espaço com gente tão bacana como a Soninha, o Caco e o Denis foi uma responsabilidade e tanto. Nunca havia escrito sobre minha vida pessoal, mas o apoio do marido jornalista me ajudou a aceitar o convite. Durante três anos e meio, abri meu coração nesta página, contei minhas angústias e conquistas, cresci e descobri em mim facetas novas.

 

Tenho que confessar que muitas vezes foi difícil entregar o texto (obrigada, Marcinha, pela paciência), antes precisava olhar para dentro de mim e entender melhor o que eu vivia. Aí está um hábito que recomendo – escrever ajuda a compreender melhor as emoções.

 

Por meio da revista fiz amigas e amigos, portas novas se abriram. Me surpreendi com a quantidade de gente que vive situações parecidas com as minhas. O que no começo era estranho – pessoas que nunca tinha visto antes sabiam da minha vida – se transformou em uma deliciosa troca de experiências.

 

Agora este ciclo se fecha e um novo se inicia. Queria deixar minha saudade e meu agradecimento por este espaço de tantos encontros. Para falar da minha emoção, deixo a voz do Fernando Pessoa tomar meu lugar.

 

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade como a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja..

 Artigo de despedida escrito para a revista Vida Simples de abril 2008.



email [sandrachemin@uol.com.br]