
Travessia do arquipélago de Les Saints a Isla Margarita, madrugada do dia 26 de junho de 2010.
Noite prateada de lua cheia. Uma das velejadas mais lindas e agradáveis dessa viagem. São quase cinco da manhã, a lua perolada se aproxima do horizonte a oeste, a leste a claridade trazida pelo sol já se faz ver.
Rumo 216o, sudoeste. Já ganhamos quatro graus para o sul desde que partimos de Saint Martin, agora estamos no paralelo 14o Norte. A cada minuto mais longe da zona de furacões. Longe mesmo só ao sul de 11o e logo estaremos nessas águas mais tranquilas.
Foram dois meses e três dias de silêncio. Vivemos a rotina do barco-nave, das manutenções sem fim, da preparação. Preparação para a viagem que teremos pela frente. Um tempo com a cabeça voltada para o futuro e o trabalho nos chamando para o presente. Fizemos muitas coisas para nossa nave, mas como costuma acontecer em períodos assim, cuidamos pouco de nós. Percebemos a importância de aproveitar mais o caminho, brincar mais. Se não prestarmos atenção, o cuidar da nave consome todas as nossas energias.
Travessia banhada de luz, de golfinhos a nos escoltar para o porto seguro em Guadaloupe quando o vento contra apertou. De uma parada gostosa no porto conhecido de Les Saints, mergulho na ancoragem do Pão de Açúcar antes de seguir viagem. Sinto o equilíbrio de volta para nossa familinha – saber quando parar, quando reabastecer o barco e a alma, quando é hora de seguir.
Agora, a vontade de desfrutar que aparece mesmo nesses dias de navegação. Aparece no brincar de boneca das meninas, que hoje fizeram o casamento da Sandra com o João Pedro, com direito a padre, véu, festa e tudo. No turno de madrugada com a Clara, nas histórias que inventei para ela sobre uma menina que sai voando numa vara de pescar mágica e fica amiga dos marlins azuis. Sinto essa energia no cafuné, ela no meu colo, dizendo o quanto colo de mãe é quentinho. No prazer de subir as velas sozinha à noite. Me aproximo do Santa Paz e do caminho que escolhi trilhar.
Pego o GPS, que me mostra que o sol vai nascer às 6:42 e a lua vai se pôr às 7:40. São seis horas, meu turno já acabou, mas resolvo dar mais um tempo de sono para o Lucas e esperar para ver o sol nascer. O GPS ainda mostra 4 peixinhos no dia de hoje, acho que a lua cheia traz boa pescaria. A linha está na água desde a tarde de ontem, quando um peixe bem grande fisgou nossa isca. Por um tempo vivemos a emoção e curiosidade de imaginar que peixe seria aquele até ele se soltar e deixar o mistério para alimentar nossa fantasia e nossas histórias.
Aproveito esse tempo para filosofar um pouco...
Barco, você é tantos, quanto somos nós. Barco-casa, barco-escola, barco-nave. Seja bem-vindo, barco-diversão.
Barco, você é tantos, como é a vida, que balança e nos leva por caminhos diferentes. Hora mais perto do (nosso) sol, hora mais perto da lua. Hora para perto de nós, outras para longe.
Como a lua, vivemos fases. De silêncio, de espera, de trabalho. De semear, colher, desfrutar.Como a lagarta que vimos na Fazenda das Borboletas em Saint Martin, saímos do casulo com asas novas e fortes para voar. Nossas novas velas estão aí para nos lembrar.
Já tenho um nome para o livro que quero escrever: Relatos de uma viajante pelos mares da vida.
Gosto dessa travessia, onde mudamos o rumo para escapar da chuva. Reconhecemos o medo e o esperamos passar. Seguimos quando a intuição manda.
6:36h. Nuvens, tantas, que já encobriram o amarelo da lua, deixem-me ver o sol...